Opinião: Clemer, Betinho e Campos ajudam a oxigenar futebol sergipano

No momento em que se discute a necessidade de "reciclagem" dos treinadores brasileiros, a importância de serem mais estudiosos e estarem antenados aos conceitos modernos sobre o futebol, alguns profissionais se estabelecem no mercado como bons exemplos de implantação de trabalhos diferenciados. O Corinthians compactado de Tite, com jogadores sem guardar posição e cumprindo funções variadas fez sucesso no Brasileirão do ano passado. No Paulista de 2016, a audácia do Audax de Fernando Diniz reforçou a obrigação de se adotar novas ideias para obter destaque em um universo recheado de mais do mesmo.

Com essa receita, três treinadores estão ajudando a oxigenar o futebol sergipano. Eles chegaram aos respectivos clubes em um contexto bastante parecido, com pressão por bons resultados, e conseguiram, em pouco tempo, implantar um trabalho de excelência nos três maiores clubes do estado. Clemer, Betinho e Leandro Campos contrariaram a lógica. Raramente um treinador de fora, com pouco conhecimento sobre o mercado local, vingou no futebol sergipano. O que os tornaram exceção à regra? Quão bem fizeram para Sergipe, Confiança e Itabaiana? É isso que vamos tentar destrinchar nas próximas linhas.

CLEMER

Nome consolidado nos gramados como goleiro do Flamengo e do Internacional, Clemer quer figurar agora no hall de grandes treinadores do futebol brasileiro. Ele iniciou a carreira nas categorias de base do colorado gaúcho, conquistou o gauchão sub-17, o Campeonato Brasileiro sub-17 e a Copa do Brasil sub-20, além de outros torneios menores. Antes de chegar ao Sergipe, teve rápida passagem pelo Glória de Vacaria, do Rio Grande do Sul.

A contratação de Clemer no Sergipe agitou o noticiário esportivo, causou surpresa e gerou interrogações. Será que um treinador ainda em busca de afirmação conseguiria apagar a crise no alvirrubro, que vinha de duas temporadas de insucesso e acumulava resultados ruins com Roberval Davino? As dúvidas logo foram dissipadas. O novo treinador rapidamente fez o time crescer, ganhar moral com a vitória na estreia dele, justamente em um clássico contra o Confiança. 

Clemer fez algumas mudanças estruturais no Sergipe. Trouxe reforços pontuais que foram importantíssimos para a evolução do time, como o meia Calyson e o atacante Hiago. A equipe ficou mais leve, mais criativa, com boas alternativas na construção das jogadas de ataque. Os resultados positivos foram se acumulando e o vermelhinho chegou à decisão com o Itabaiana. 

Mesmo o adversário tendo a vantagem de jogar pelo empate na soma dos 180 minutos e tecnicamente possuir um time mais qualificado, o Sergipe se superou. Venceu o primeiro jogo por 1 a 0 e segurou o empate fora de casa, garantindo o título, que por sinal foi o primeiro de Clemer no profissional. O bom trabalho despertou o interesse de outros mercados no jovem treinador. Por isso, a diretoria acredita que tem poucas chances de conseguir renovar com ele para a Série D do Campeonato Brasileiro. Caso a saída dele se confirme, vai deixar saudades.

BETINHO

Sem receio de dizer uma bobagem. Betinho é o melhor treinador que passou pelo futebol sergipano nos últimos tempos. Os resultados em campo não me deixam mentir. Ex-jogador de Palmeiras, Cruzeiro e Internacional, ele vinha construindo a carreira de técnico no interior de São Paulo. Chegou a Aracaju quase que por acaso, por indicação de Fahel Júnior. Aportou no Sabino Ribeiro em 2014, desconhecido na função e com a difícil tarefa de tirar o time azulino da crise no estadual. 

Logo na estreia, uma vitória maiúscula, também em um clássico contra o maior rival, o Sergipe. A partir daí o time não parou mais de crescer. No primeiro ano de trabalho, foi campeão sergipano e garantiu o acesso para a Série C do Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, com os dois principais adversários em crise, nadou de braçadas no Sergipão e faturou o bicampeonato. E apesar das dificuldades no início da terceirona, por muito pouco não levou a equipe proletária para a Série B.
Betinho quebrou uma marca no Confiança, antes dele, havia uma verdadeira dança das cadeiras. 

Nenhum treinador passava mais do que três meses na função. E em 2016 ele chegava ao terceiro ano de trabalho, fazendo o time jogar um futebol eficiente e conseguindo, por muitas ocasiões, estabelecer um padrão de jogo, mesmo com mudanças de peças. O jeitão tranquilo de lidar com os problemas extra-campo foi um fator positivo também.

Para a atual temporada, as projeções eram as melhores possíveis. Houve decepção com a campanha na Copa do Nordeste, mas o título simbólico do primeiro turno do Campeonato Sergipano deu indícios de que o tão sonhado tricampeonato estava próximo. O ponto alto do trabalho foi a vitória histórica e heroica contra o Flamengo pela Copa do Brasil. Porém, logo em seguida, a coisa desandou. O elenco apresentou sinais de desgaste e três derrotas consecutivas no estadual, duas delas em clássicos, foram suficientes para tirar o clube da zona de conforto e para Betinho perder o emprego.

Ele foi passar uma chuva no ASA de Apariraca enquanto o Confiança trazia Fahel Júnior, que não fez o time voltar a render. Bastaram menos de dois meses para dirigentes e torcedores sentirem saudades do trabalho de Betinho. Por isso, ele voltou ao estádio proletário para tentar o que quase alcançou no ano passado: A vaga na Série B.

LEANDRO CAMPOS

Dos três treinadores citados, Leandro Campos é o mais experiente. Aos 52 anos, o gaúcho coleciona passagens de sucesso por clubes de destaque do futebol brasileiro. Pelo ABC de Natal, conquistou a Série C em 2010 e foi bicampeão potiguar (2010 e 2011). Ainda tem no currículo o título cearense de 2013 pelo Ceará. Estava no Coruripe antes de assumir o Itabaiana.

Pelo Tricolor da Serra, foi a aposta para tentar fazer o time decolar. Os resultados até estavam aparecendo, mas o time não estava conseguindo encaixar o melhor futebol e vinha de duas temporadas desastrosas. O estilo sério do novo comandante transformou o Ita em um time consistente, muito bem equilibrado em todos os setores, sem perder a leveza e fazendo os talentos individuais funcionarem dentro de um esquema muito bem montado.

O resultado? Time jogando o melhor futebol no Campeonato Sergipano. Leandro Campos se manteve invicto à frente do Itabaiana até o primeiro jogo da final, contra o Sergipe, na Arena Batistão. A derrota por 1 a 0 não abalou o otimismo do time, que vendeu caro o título no jogo de volta.

A frustração com o vice houve. Mas acima de tudo a convicção de que o trabalho merecia e deveria ser continuado. Leandro Campos aceitou permanecer no cargo para a Série D. Mas com uma condição. A promessa de ter em mãos um time forte para brigar pelo acesso. 

E em nós, que presenciamos toda essa evolução promovida pelo trio, fica o desejo de que continuem produzindo bons resultados para os nossos clubes, e que outros profissionais como eles surjam para potencializar ainda mais este processo. O futebol sergipano agradece.

Globo Esporte / SE