Com a terra rachada, ribeirinhos recorrem às orações para pedir chuva em Sergipe

Entre os 28 municípios sergipanos reconhecidos em situação de emergência pelo Ministério da Integração Nacional (MIN) está Cedro de São João (SE), localizado no Baixo São Francisco. Na cidade de quase seis mil habitantes, o principal espelho d’água começa a desaparecer por causa da longa estiagem e a comunidade tem recorrido às orações para pedir chuva.

Segundo os moradores, há menos de um ano a lagoa invadia os quintais de algumas residências, mas agora está bem distante e resume-se a uma pequena reserva. Por causa das altas temperaturas, a água está se evaporando, os barcos de pescadores deixaram de circular e a terra começa a rachar com mais facilidade.

O fotógrafo Marques Barbosa é um desses moradores que assiste a transformação do local, sem poder fazer nada. Ele lembra que no passado a lagoa era um espaço de encontro, lazer e até sustento das  comunidades mais carentes.

“Quando era criança, lembro que muitas mulheres vinham lavar roupa por aqui. E a gente aproveitava para brincar, tomando banho. Muitas pessoas também pescavam e tiravam o alimento da família, além de ter peixe para vender na feira. O local já vinha sofrendo com o lançamento dos esgotos e agora sofre por causa da seca, que se agravou nos últimos três meses”, lamenta.

Esta semana, Marques fez algumas fotografias da lagoa na tentativa de chamar a atenção das autoridades para a situação enfrentada pelos moradores. “É chocante pra gente que se criou na Salomé acompanhar tudo isso. Como a previsão é de pouca chuva, a gente recorre às orações para pedir o milagre. Os peixes estão deixando de existir na lagoa e muitos animais, que dependem dela, como as capivaras, estão morrendo de sede”, desabafa.

A Salomé fica na sede da cidade,mas outra situação semelhante é registrada no Povoado Poço dos Bois, com a Lagoa do Algodão. Em tempos de chuva, ela mede cerca de quatro hectares, com mais de 3 metros de profundidade. “Algiodão era usada para pescaria, irrigação e até matar a sede dos animais. Agora, está aterrada, nunca foi limpa e com a longa estiagem só tem uma poça de água", lamenta o professor e morador do local Gilson dos Santos.

Segundo o professor, em 2015, a lagoa também secou. “Foi por pouco tempo, porque a chuva chegou logo. O Riacho Jacaré, que passa também pela cidade está secando. O meu sentimento é de tristeza", disse.

Sem água e chuva, a pastagem também perde o tom de verde e deixa o homem do campo preocupado. E com o solo esgotado falta alimento para os animais. “Quem tem gado de corte está matando para não ter mais prejuízo, mas vende a preço muito baixo. Já quem tem vaca leiteira, está gastando mais com ração que não está nada barato”, observa o criador José Carlos Morais.

Para protegerem-se do sol forte, os animais que resistem a falta da água e ao calor forte, tentam abrigar-se nas sombras dos juazeiros, que ainda resistem às altas temperaturas que passam dos 30º.

O chefe do Centro de Meteorologia da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), Overland Amaral, informou que nos próximos 90 dias a previsão é de chuvas intercaladas e com volume de 30 mm. Ele acredita que a quantidade não será suficiente para resolver o problema da seca em Sergipe.

“Para encher barragens, mananciais e abrandar o coração sertanejo, deveria chover três vezes mais que os 30 mm nos próximos 90 dias, algo que não deve acontecer. Elas devem dar um alívio, mas não serão suficientes, especialmente para abastecimento de mananciais, barragens, açudes, até mesmo o lençol freático, que está sofrido”, afirma.

Combate à seca

Para combater os efeitos da seca, algumas ações têm sido implementadas nas cidades que sofrem com a seca. Na lista do Governo do Estado são 30 municípios em situação de emergência, com a entrada de Tobias Barreto e Japoatã, que aguardam a análise e o decreto federal.

Na terça-feira (7), o ministro da Integração Helder Barbalho e o governador Jackson Barreto anunciaram, em Brasília, a liberação de R$ 7 milhões em recursos e ações com o objetivo de minimizar os efeitos da estiagem, que atinge uma população de 462.544 habitantes.

G1/SE