HIV: em Sergipe quase duas mil mulheres casadas estão infectadas

Ao falar sobre a infecção pelo vírus do HIV ocorrida há oito anos a consultora de vendas Rosa*, que prefere não ser identificada, desabafa “Eu me sinto marcada, quando você descobre que tem Aids começa a peneirar amigos, familiares, todos que se aproximam. É uma defesa”, analisa numa referência ao preconceito que sofre ainda hoje. Saber que era soropositiva foi uma notícia devastadora, principalmente porque a doença foi transmitida pelo marido, com quem ela conviveu por 35 anos. “Eu confiava nele, era um casamento em que tudo era partilhado e de repente você se vê com uma doença e foi seu marido que trouxe para casa”, relata.

Ela é parte de uma estatística alarmante. Dados do Programa Estadual de IST/AIDS da Secretaria de Estado da Saúde (SES) mostram que em Sergipe, das 1831 mulheres com o vírus do HIV, 70% estão em relacionamentos monogâmicos, e foram infectadas pelos companheiros. Compondo essa estatística estão histórias de mulheres que, assim como Rosa, confiaram nos companheiros e não observaram os cuidados necessários para prevenção contra as IST’s.

“Eu acreditava em tudo que ele me dizia e fazia tudo o que ele queria. Depois de dois anos convivendo comigo, ele contou que tinha um relacionamento com outro homem de quem pegou o vírus”, conta Bruna*. Ela é infectada há 21 anos e descobriu a doença quando já estava em um novo relacionamento. “A gente ia fazer uma casinha, eu ajudando ele a colocar umas telhas levei uma queda”, continua. Por conta do acidente Bruna foi internada, descobriu a doença e passou por um período de três meses indo a hospitais, chegou a pesar 25 kg. O novo companheiro não foi infectado pelo vírus.

Marta* endossa o grupo de mulheres contaminadas pelos companheiros. Por um ano ela viveu um relacionamento monogâmico. “Eu não achava que ele tinha a doença, era uma pessoa forte, que eu conhecia”, comenta. A descoberta da Aids aconteceu há 18 anos, após uma infecção alimentar que resultou em internamento. “Assim que descobriu minha doença, ele me abandonou no hospital”, relata. Ela passou oito meses internada no Hospital de Urgências de Sergipe (HUSE), sem apoio do então companheiro.

Uma doença que se alastra: a importância da prevenção

Apesar das campanhas de prevenção e dos investimentos em tratamentos realizados há quase 30 anos no Brasil, a Aids ainda é uma doença preocupante e que se alastra entre diferentes grupos sociais. Durante décadas os homens constituíam uma maioria de novos casos de infecção pelo vírus do HIV, mas a disparidade em relação aos novos casos constatados em mulheres tem diminuído.

Segundo a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP) divulgada no ano passado, há 10 anos a cada seis casos de Aids em homens, era registrado um em mulheres. Hoje essa proporção caiu e está em dois para um. Em Sergipe a proporção se mantém, já que dos 5363 casos de HIV em adultos no estado 65,86% são de homens e 34,14% de mulheres. Os casos de infecção pelo vírus do HIV no estado são mais recorrentes na região da Grande Aracaju, que contabiliza 2752. No interior são outras 2408 pessoas infectadas, sem considerar os casos de infecção vertical, quando a mãe transmite o vírus para a criança no momento do parto.

“Existe uma grande dificuldade no uso da camisinha no casamento. A questão da confiança entre o casal dificulta a tomada de decisão que é agravada pelo hábito de homens que não são acostumados a utilizar o preservativo desde a juventude, por acreditar que a camisinha diminui a sensibilidade ou dificulta a ereção”, explica o gerente do Programa Estadual IST/Aids, o médico Almir Santana.

A necessidade de exigir a utilização do preservativo num relacionamento não é uma prerrogativa exclusiva das mulheres, mas um cuidado que deve ser do casal. No entanto, muitas encontram dificuldade em conseguir colaboração dos parceiros. “Ele não aceitava sequer falar sobre exame de prevenção, dizia que se eu estava falando sobre isso era porque havia traído ele”, declara Rosa.

Para Almir Santana, mesmo nos relacionamentos em que o homem se recusa a tomar cuidado com a prevenção, há alternativas viáveis para que a mulher se cuide “É preciso conversar com o parceiro, aproveitar qualquer oportunidade para falar sobre o preservativo. Se ainda assim ele não usa, existe a opção do preservativo feminino”, continua Almir Santana.

Hoje Rosa entende que o conhecimento e o diálogo entre companheiros sobre o uso de preservativo é fundamental para evitar que mais mulheres sejam infectadas, mesmo em relacionamentos monogâmicos. “A camisinha é a única maneira de não se contaminar, a mulher tem que conversar, usar a camisinha feminina e mesmo que o companheiro não aceite, tem que insistir. Não é somente confiar, a mulher tem que se cuidar”, recomenda.

Outra questão a ser considerada quando se fala em prevenção contra a Aids em relacionamentos monogâmicos é a sinceridade entre os parceiros. Bruna, que foi infectada há 21 anos, vive um relacionamento monogâmico há mais de uma década e desde o usa preservativo. “Além de proteger ele, tenho que me proteger. Não é só a Aids, existem várias outras doenças”, afirma.

União e a luta contra o preconceito

Essas mulheres estão amparadas, elas recebem atendimento e medicação no Centro de Especialidades Médicas de Aracaju (CEMAR) e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e onde elas encontram os insumos de prevenção. Em Sergipe elas ainda têm acesso a uma equipe composta por 10 infectologistas e médicos de outras especialidades, dentre os quais oftalmologistas, nutricionistas e ginecologistas.

Elas também construíram uma rede de solidariedade e apoio para enfrentar o preconceito que ainda existe em relação às pessoas soropositivas, o Grupo Mulheres Positivas. “Viver com uma patologia dessas é complicado. Todo lugar que você chega te fecham as portas”, explica Marta. Estar no grupo é uma forma de trocar experiências e garantir apoio para seguir com o tratamento e explicando a outras mulheres a importância de se prevenir. “É sempre uma luta, mas se você me perguntar, hoje eu sou feliz. Em alguns dias fica difícil aceitar minha condição, mas no grupo eu encontro forças.” Finaliza Rosa.

*As mulheres que participaram desta matéria preferiram não ser identificadas.