Valadares disse no Senado que tinha certeza da inocência de Aécio Neves

Entre os rituais do Senado – instituição inspirada na Câmara dos Lordes da Inglaterra e tida como a expressão máxima do Legislativo brasileiro – talvez o mais teatral deles seja os apartes em plenário como oferenda a discursos de senadores sob graves denúncias de corrupção. Só as acusações com potencial destrutivo considerável merecem ser levadas ao púlpito em que já discursaram Rui Barbosa, Darcy Ribeiro, Juscelino Kubitschek, Artur da Távola. Mas, ultimamente, não tem sido bom negócio tecer loas a quem tenta se justificar na tribuna, geralmente com discursos bem pensados e escritos, para dias depois virem a ser desmascarado pelos fatos.

Há menos de um mês, em 4 de abril, o roteiro se repetiu. Fustigado por diversas acusações de corrupção e alvo de seis inquéritos no STF, o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) convocou seus pares para o discurso de defesa e a conhecida rodada de apartes de solidariedade. Na ocasião, contestou com veemência reportagem da revista Veja sobre pagamento de propina da Odebrecht por meio de uma conta em Nova York. Aqui neste compêndio de apartes, o objetivo deste site não é entrar no mérito da matéria jornalística, mas lançar luzes sobre o espírito de corpo que une as excelências.

Campeão de citações de delatores e investigações na Operação Lava Jato, Aécio foi à tribuna do plenário e, a plenos pulmões, anunciou que iria à Justiça “punir os culpados” pelo vazamento de informações sigilosas. “Mostrem o banco, mostrem a conta, e essa farsa ficará desmascarada de forma definitiva!”, desafiou, diante de colegas prontos para aparteá-lo no que já é uma sessão histórica de bravatas e poses para as lentes do Senado.

Resultado: o discurso pela moralidade ruiu definitivamente quando Joesley Batista, dono do Grupo JBS e um dos mais temidos delatores da Lava Jato, gravou conversa em que o tucano lhe pede secretamente R$ 2 milhões. Mas não era um inocente pedido de empréstimo, segundo investigadores da força-tarefa, mas uma trama de corrupção que, enfim descoberta, terminaria por levar a própria irmão e mentora, Andréa Neves, além de um primo, para trás das grades em 18 de maio, onde estão até hoje. O próprio tucano está sob ameaça de prisão, à espera de julgamento do STF a partir de pedido formulado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

O senador Valadares foi um dos que pediram aparte para dizer que tinha certeza da inocência de Aécio.

Antônio Carlos Valadares (PSB-SE)

“Eu quero dizer que votei em vossa excelência para presidente da República. E vossa excelência sabe os adversários cruentos que eu tenho em Sergipe e o quanto se aproveitam desse episódio para incriminá-lo. Mas eu tenho certeza absoluta de que, com vossa excelência levando as provas da verdade contra as acusações que lhe imputam, a Justiça haverá de lhe dar o devido valor, como nós que participamos do Senado e que conhecemos sua família.”