Depressão na adolescência não é "frescura", adverte psicóloga

Há quem não dê tanta importância aos sintomas emocionais ou os associe à falta de fé, mas a depressão, considerada a doença do século, é um problema real e cada vez mais frequente entre os jovens. Uma pesquisa da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, apontou que a taxa de adolescentes entre 12 a 17 anos e de adultos com 18 a 25 que declararam ter sofrido algum episódio de depressão subiu 37% em dez anos. 

Uma a cada seis meninas alegou manifestar o quadro no último ano.Segundo especialistas, a sensação persistente de tristeza profunda ou pouca motivação, características desse mal, podem desencadear sintomas físicos e comportamentais, como insônia, sentimentos de culpa e de desesperança, falta de apetite e baixa autoestima, além de associar a pensamentos suicidas. 

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o suicídio é a segunda principal causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos.“O suicídio é um fato relevante na discussão da depressão, posto que, na maioria das vezes, ela o precede. 

O suicídio é maior entre os homens, mas as tentativas ocorrem em maior número entre as mulheres. É importante atentar para o fato de que o suicídio, por vezes, é precedido por ameaças (às vezes pouco acreditadas) ou tentativas”, afirma a psicóloga Michelle da Conceição Silva, acrescentando que é preciso buscar serviços de saúde mental públicos  ou privados para evitar que o suicídio se concretize. 

O jovem Lucian Ambrós, hoje com 29 anos e com o problema superado, recorda a fase em que foi diagnosticado com a depressão, aos 16. “Na época só queria chorar. Era como se eu estivesse com dor por causa de um problema, mas sem existir um problema. 

Não sabia o que era depressão. Quando vi que a coisa estava fugindo do controle, procurei ajuda médica, mas tive uma recaída com 17, após abandonar os tratamentos, e tentei me matar algumas vezes”, diz ele, que acredita que um histórico de violência sexual sofrido na infância pode ter contribuído para o transtorno.As causas possíveis para a depressão, segundo estudiosos, incluem uma combinação de origens biológicas, psicológicas e sociais de angústia. Pesquisas sugerem ainda que esses fatores podem gerar mudanças na função cerebral. A base do tratamento geralmente inclui medicamentos, psicoterapia ou uma combinação dos dois.O servidor público Thiago Coelho, 28, foi diagnosticado com depressão aos 17 anos por um neurologista, que identificou que a causa desses sintomas era genética e, a partir daí, seguiu o tratamento com psicólogo e psiquiatra, que o acompanha até hoje. Mas, para ele, fatores como a não aceitação da sua bissexualidade por parte da família, os conflitos familiares e problemas com relacionamentos amorosos podem ter agravado o quadro.“Faltava o sentido da vida. 

Eu tinha muitas mudanças de humor, chorava muito, perdi o interesse e o prazer nas atividades, inclusive nas que eu mais gostava. Não queria ver ninguém, só queria dormir. Me sentia culpado por não conseguir mudar aquela realidade. Não conseguia me concentrar em nada e me sentia angustiado o tempo todo. Perdi peso, fiquei feio, sentia vontade de beber para anestesiar a dor. 

Tentei o suicídio. Foram tantas coisas que não desejo a ninguém”, conta Coelho, que tem familiares diagnosticados com a mesma doença.A superação tem sido uma conquista quase diária para o biólogo, que aprendeu a conviver com a depressão. Apesar do apoio da família, dos poucos amigos e do tratamento, as recaídas persistem. “É uma verdadeira montanha russa cheia de altos e baixos. Pelo meu histórico, não consigo me ver curado. Aprendi a conviver como um hipertenso convive com a pressão alta. Infelizmente, para quase todos os familiares e amigos, a depressão é frescura, falta de Deus, de uma surra ou de sexo”, lamenta Thiago.

A adolescência, destaca a psicóloga, é um período peculiar no desenvolvimento humano, uma vez que marca a transição da infância para a idade adulta e, por isso, os pais devem estar atentos a comportamentos negativos.“Quando tais ocorrências implicam em prejuízo social e alteração de rotina, é necessário consultar um profissional de psicologia ou psiquiatria, que avaliará a gravidade e fará os encaminhamentos, que incluem orientação aos pais, à escola, psicoterapia, bem como prescrição de medicamentos (pelo psiquiatra)”, orienta Michelle da Conceição.

O diagnóstico da depressão é mais recorrente entre as meninas, segundo a especialista, provavelmente porque as adolescentes têm mais abertura para falar a respeito daquilo que sentem. “Entretanto, como fatores de vulnerabilidade temos: histórico de depressão parental (pais), situações de abuso e violência, dificuldades quanto ao exercício e aceitação da sexualidade, e identificação com grupos considerados socialmente minoritários”, explica Michelle.

QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA

Para a psicóloga, o debate acerca da depressão tem ganhado força nos últimos anos, mas ainda precisa de mais disseminação, considerando os tabus e desconhecimento a respeito da doença.“Há quem acredite que a depressão é um problema de saúde típico de determinadas classes sociais ou ainda que estaria associada à pouca fé, o que acaba por responsabilizar o indivíduo pelo processo de adoecimento e isso precisa ser desmistificado. 

A depressão é um problema de saúde pública que deve ser amplamente esclarecido, evitando estigmas e consequentes segregações”, aponta Silva.Ainda de acordo com a especialista, é imprescindível também buscar hábitos saudáveis, o que inclui falar sobre sentimentos, colaborando para a sensação de bem estar. “Aos familiares cabe estar abertos ao diálogo e demonstrar interesse por aquilo que é dito pelo adolescente. É importante questionar padrões estabelecidos socialmente e que, por vezes, são inatingíveis, a exemplo de padrões de consumo e de beleza”, conclui Michelle da Conceição.

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