Seca e caminhoneiros elevam o preço do leite para o consumidor

Com a falta de chuvas, os pastos estão secos. A paralisação dos caminhoneiros prejudicou a dieta das vacas. A baixa cotação do leite nos últimos anos desestimulou investimentos e até fez alguns abandonarem o setor. Os estoques nas indústrias estão baixos.

O resultado dessa equação se vê no dia a dia do consumidor lá nos supermercados: o preço do leite deu um salto. E não deve cair nos próximos meses.

Em julho foi registrado o mais baixo nível de chuvas desde 1931, segundo o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Não há sinais de melhora em agosto. A seca que se arrasta desde o primeiro semestre deixou as pastagens ralas —e assim elas tendem a ficar nos próximos meses.

Essa é, por exemplo, a paisagem no sítio de Fernando Fonseca, no sul de Minas Gerais. Sem encontrar preço adequado, a família já pensa em trocar de atividade.

“Não consigo comercializar o leite por mais de R$ 1,10, valor muito baixo, desanimador. E estou produzindo menos por causa da seca”, afirmou.

Fonseca chegou a obter 14 litros de leite diários por vaca, volume hoje que é de 11 litros.

Apesar de serem os donos da matéria-prima, os produtores não são os únicos responsáveis pelo preço do leite, que tem sido vendido a até R$ 4 em supermercados.

Dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, mostram que em julho o preço do leite pago aos produtores subiu pelo sexto mês seguido, batendo recorde.

No país, o preço médio chegou a R$ 1,4781. Em São Paulo e Minas, os valores são mais altos —R$ 1,5001 e R$ 1,5311, respectivamente.

O preço é formado nas indústrias, que processam o leite recebido e o transformam em produtos estocáveis, segundo Natália Grigol, pesquisadora do Cepea.

Elas formarão o preço baseadas no consumo e, consequentemente, no volume de produção que conseguem escoar em tempo hábil.

“A indústria, além do preço da matéria-prima, tem o custo de transformação, estoque e logística. Ela acaba tendo maior poder de negociação. E o canal de distribuição tem de arcar com refrigeração e estoques, entre outros pontos.”

A Folha procurou a Viva Lácteos (Associação Brasileira de Laticínios) na sexta-feira (10), mas não foi possível ouvir o porta-voz da entidade.

Apesar de o preço ter subido nos últimos meses, nem todos os produtores conseguem receber o valor médio, e os reajustes que têm sido registrados para o consumidor não chegam na mesma proporção ao campo.