PT estuda reforma interna e teme comunicação do governo Bolsonaro

Reunido pela primeira vez após a derrota na eleição presidencial, o comando do PT vai discutir esta semana possíveis mudanças na estrutura interna e na comunicação do partido, além do posicionamento da sigla diante do governo Jair Bolsonaro (PSL).​

Dirigentes elaboraram propostas que serão debatidas no encontro do Diretório Nacional do PT, nesta sexta (30) e sábado (1º) em Brasília, que vão desde o ensaio de uma auto-crítica até a construção de uma estratégia digital para tentar melhorar a imagem da legenda.

Petistas ouvidos pela Folha relataram estar preocupados com a institucionalização da ofensiva de Bolsonaro nas redes sociais, mas são pouco assertivos quanto a possíveis alterações na condução das práticas partidárias. 

Durante a campanha, Bolsonaro teve sucesso ao estabelecer um canal de comunicação direto com seus apoiadores, que deve ser potencializado com a estrutura do Palácio do Planalto —somada ao fortalecimento da Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

Segundo documento preliminar que ainda precisa ser aprovado pelo comando petista, o partido foi vítima de uma "campanha de terrorismo cultural, que vai requerer um trabalho longo e paciente de enfrentamento".

Parlamentares da sigla defendem ainda que haja um estudo mais aprofundado para entender o antipetismo e seus vários componentes e, assim, poder enfrentá-los nos próximos anos.

Além do balanço da eleição e do desenho das novas táticas do partido, a CNB (Construindo um Novo Brasil), corrente majoritária petista, pretende propor uma reforma estrutural interna para ampliar a participação popular nas decisões da sigla, abrindo o debate, inclusive, para os não filiados.

A viabilidade da medida ainda é colocada em xeque, assim como a possibilidade de o PT fazer uma autocrítica robusta, que extrapole a política econômica de Dilma Rousseff no início de 2015.

Os dirigentes mais críticos avaliam que não é suficiente se ater ao segundo mandato de Dilma —que culminou no impeachment— como a causa de todos os problemas do partido e que é preciso flexibilizar o pensamento hegemonista da sigla.

No texto que vai a debate e voto no encontro do fim de semana são listados 74 itens que apontam motivos e consequências da derrota de Fernando Haddad (PT) para Bolsonaro em outubro.

A avaliação é que o PT perdeu apoio popular, especialmente no Sul e Sudeste, pela condução da economia durante o segundo governo Dilma —com medidas de ajuste fiscal e afastamento dos movimentos sociais— e pela dificuldade em lidar com o arrebatamento de "corações e mentes" pela direita.

Nesse aspecto, eles dizem, o partido falhou ao enfrentar o tema da corrupção e não realizar reformas estruturais enquanto esteve no poder.

O reconhecimento de erros novos, como os cometidos pela campanha de Haddad, por exemplo, ainda não são consensuais e podem ficar de fora do texto final.

Entre o primeiro e o segundo turno, integrantes da campanha do PT admitiram ter errado ao menosprezar Bolsonaro de início e reclamaram dos chamados acenos ao centro que Haddad fez ao mercado e aos políticos. 

No documento, são lembrados como exemplos a redução da presença do ex-presidente Lula na campanha e eliminação do programa de governo de bandeiras como o duplo mandato do Banco Central --ao qual Haddad sempre foi contrário--, além dos elogios à Lava Jato feitos pelo ex-prefeito de São Paulo às vésperas do segundo turno.

No encontro desta semana também devem ser discutidas a intensificação da campanha pela liberdade de Lula e o papel de Haddad como líder da oposição.

Partidos de centro-esquerda, como PDT, PSB e PCdoB, têm conversado para a formação de uma frente de contraposição a Bolsonaro excluindo o PT. Dirigentes petistas acreditam que a política deve ser de unidade daqui para frente, mas ainda há quem defenda a visão hegemonista que o PT teve até aqui.

Haddad não vai ao encontro do Diretório Nacional. Ele estará em viagem aos Estados Unidos e deve se encontrar com o senador Bernie Sanders e o prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio, ambos do Partido Democrata.

O ex-prefeito de São Paulo não quer assumir nenhum cargo no comando do PT, mas quer liderar um movimento suprapartidário de oposição a Bolsonaro, que atue na defesa dos direitos sociais e civis.

Fonte: Folha de São Paulo