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Prefeitura não paga talão de energia e deixa bombas de água desligadas

Todo dia pela manhã a rotina tem sido a mesma. Dezenas de famílias acordam cedo, recolhem vasilhames e outros utensílios para o armazenamento de água e seguem em direção ao rio ou ao chafariz. Lá elas enchem os reservatórios e retornam às suas casas para, só assim, poder iniciar as atividades diárias. Essa peregrinação vem acontecendo em alguns povoados no município de Santa Luzia do Itanhy, no litoral Sul de Sergipe, desde que a energia das bombas de água foi cortada e, por consequência, o fornecimento para as residências ficou interrompido.

O morador do Povoado Piçarreira, uma das localidades atingidas, conta que a situação não está nada fácil. Segundo ele, o valor da energia consumida pelas bombas era dividido entre os moradores da localidade, mas nem sempre esse acordo funcionava, pois, apesar de ser um preço acessível, a comunidade é bastante carente. “Tinha gente que ficava sem pagar e isso causava muita confusão. Então a prefeitura assumiu o pagamento, se comprometeu, mas acabou nos deixando na mão”, lamenta o comerciante Ronaldo dos Santos.

São cerca de 500 pessoas vivendo nesse povoado, todas enfrentando o mesmo problema. “Estamos buscando água no chafariz, que é bem longe daqui. Você vê mulheres, pessoas da terceira idade, carregando carrinho de mão e caminhando com peso para conseguir fazer comida ou limpar a casa. É um abuso”, completa o morador, que também reclama da falta de informação por parte dos responsáveis. “Ninguém da administração veio até aqui conversar com a gente. Mas é claro, todos eles têm água encanada em casa. O povo é que fica sofrendo sem ninguém olhar por nós”, desabafa Ronaldo.

Água só do rio 

Ali próximo, no Povoado Piassava, a realidade é a mesma. A comunidade está com as torneiras vazias desde a quinta-feira da semana passada, dia 10, sem perspectiva de quando o problema será resolvido. Para executar as tarefas domésticas é necessário contar com as águas do rio que cortam o município de Santa Luzia do Itanhy. “A gente pega os reservatórios e conta com a ajuda de um dos moradores, que leva os vasos de carroça. O banho também está acontecendo lá, como se não estivéssemos em 2019. Está triste demais a situação aqui na localidade”, relata o morador Reginaldo Santana.

São apenas 15 famílias vivendo no Povoado Piassava, e a água vem de uma bomba instalada numa escola desativada da região. Segundo a informação da comunidade, são 12 talões de energia em atraso, o que causou a interrupção do serviço. “Somos uma comunidade pequenas, sem recursos. Na minha casa são somente dois adultos e uma criança, mas há casas com muitas pessoas, onde a situação está ainda mais difícil”, lamenta. Segundo Reginaldo, ninguém ainda procurou os moradores para dar qualquer explicação. “Sempre foi a prefeitura que pagou a conta dessa bomba, agora quer tirar a responsabilidade”, acusa.

Outro morador da região, Cosme de Jesus Santos, diz que a situação é crítica também em outros povoados. “Feirinha, Cambuí e Riacho do Marco estão na mesma situação. É uma falta de sensibilidade e de responsabilidade do atual gestor. Na campanha a promessa era uma, agora ele tira o corpo fora e deixa centenas de famílias abandonadas desse jeito. É um absurdo”, critica.

Ingratidão 

O Caderno Municípios do Jornal da Cidade tentou contato com o prefeito de Santa Luzia do Itanhy, Edson Cruz (PMDB), mas ele não atendeu as ligações. No entanto, no início da semana, o gestor concedeu entrevista para uma emissora de rádio local, onde disse que a iniciativa de arcar com os valores cobrados pela energia dos poços foi da própria gestão, mas que isso não é uma obrigação dela. “Uma coisa é o que somos obrigados a fazer, outra é o facultativo, como é o caso. Assumimos essa responsabilidade de forma humana, mas não há reconhecimento da população”, afirma.
Por isso, segundo o prefeito, a partir de 1º de abril deste ano, as faturas de energia voltarão para as associações de cada comunidade, decisão que já está publicada no Diário Oficial de Santa Luzia do Itanhy. “A prefeitura continuará dando assistência na manutenção das bombas e o que mais for necessário, mas o pagamento não será feito pela administração, devido a ingratidão que recebemos. Preferiram desgastar o nome do município ao tentar resolver”.

Ainda durante a entrevista, o gestor tentou explicar a situação do Povoado Riacho do Marco, onde a energia foi cortada com 12 talões em aberto. “Desde o mês de novembro que tentamos formar um acordo de parcelamento com a Sulgipe (empresa responsável pelo fornecimento de energia no município). Mas, de antemão, já buscamos efetuar o pagamento de algumas contas para que a situação seja normalizada”, esclarece.

O caso do Povoado Piçaarreira, de acordo com a entrevista do prefeito concedida a rádio local, é mais delicado. Ele informou que existem dívidas do montante de R$ 7 mil, mas que a prefeitura só pode arcar com R$ 3 mil, já que a responsabilidade pelo pagamento não foi passada documentalmente para a administração municipal. “Quero deixar claro que de forma alguma estamos sendo irresponsáveis. A gestão está fazendo de tudo para resolver, mas muitas vezes esbarramos na burocracia. Não abandonamos comunidade alguma, vou cumprir todos os compromissos que assumi”, enfatiza.

FONTE: Jornal da Cidade