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Em Estância, soltura de fogos deve respeitar determinações judiciais

Um dos quatro elementos da natureza, o fogo foi a primeira fonte de energia descoberta e controlada de forma consciente pelo homem; e com o decorrer da história, passou a ser utilizado pela sociedade de diferentes maneiras. Causa medo e apreensão em muita gente, e, ao mesmo tempo, pode refletir uma beleza de encher os olhos, sendo o protagonista de diversos espetáculos culturais e expressões religiosas ou folclóricas.

Em Sergipe, no município de Estância, região Sul do Estado, por exemplo, o fogo reina absoluto durante o período mais importante do ano: as festas juninas. Por lá, o forró, as comidas típicas, as apresentações de quadrilha e outros folguedos característicos do período, dividem os holofotes com uma tradição que mistura o colorido do São João ao brilho reluzente do fogo, com uma boa dose de coragem e, sem dúvida alguma, um tempo considerável de treino e técnica para quem participa.

São as chamadas “guerras de espada”, que em nada se parecem com os conflitos sangrentos que marcaram a história de vários países pelo mundo. Por lá, tudo não passa de uma brincadeira – levada muito a sério –, onde homens e mulheres duelam pelas ruas da cidade, munidos de fogos de artifício característicos das festas juninas, a própria espada e o busca-pé, por exemplo. O problema é que, assim como as guerras reais, nem todo mundo respeita as regras, e o que era para ser a continuidade de uma expressão popular, acaba se tornando tormento na vida de alguns.

Foi o que aconteceu aos moradores da Rua Leopoldo Amaral, conhecida como Rua do Triunfo. Cansados das paredes e fachadas danificadas, telhados quebrados, barulho e, em alguns casos, problemas de saúde causados pela fumaça dos fogos, um grupo de 36 pessoas se reuniu e moveu uma ação no Ministério Público – que foi favorável aos moradores – pedindo providências para o excesso de queima de busca-pé e espada em um trecho que mede menos de 100 metros de extensão, como explica o morador, José Cruz, que representa os vizinhos. 

“Como o trecho em questão além de curto é estreito, quem reside nele sofria demais as consequências dessa queima de fogos que vinha ocorrendo de forma desordenada. Temos crianças e idosos, pessoas alérgicas que residem nessa região e ficavam ainda mais doentes por causa da fumaça. Sem falar no prejuízo na estrutura das casas”, desabafa. O estanciano conta que houve muita polêmica por causa do processo. Gente que quis acusar o grupo de querer “acabar com o São João de Estância”. 

“Um absurdo, pois a festa junina com todos os seus itens, é uma tradição que já tem mais de um século. Agora convém frisar que a arquitetura do município mudou e os tempos são outros. O São João daqui é uma bela festa, mas está faltando ordem e organização”, opina. O morador lembra, ainda, que existe um decreto municipal que proíbe a queima de busca-pés e espadas nas ruas de Estância. “Apesar de não ser cumprida a determinação”, lamenta.

O decreto a que ele se refere é um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pela então gestão municipal, em 2013, determinando que no dia 13 de junho, Dia de Santo Antônio, a soltura de fogos de grande porte, como os em questão, somente poderá ser feita na Avenida Getúlio Vargas, popularmente conhecida por “Rua Nova”. Já nos dias 23 e 24 de junho, véspera e Dia de São João, o local indicado para a prática já é conhecido pelos participantes da tradição, uma região onde tradicionalmente ocorrem as guerras. 

O Termo de Ajuste define, também, que nos demais dias do mês de junho a soltura de fogos só pode ser realizada na área do “Forródromo”, local protegido por telas e apropriado para receber a manifestação sem causar transtorno ou perigo para a população em geral.

Desdobramento

Após o episódio envolvendo os moradores da Rua Leopoldo Amaral, José Cruz revela que várias pessoas procuraram os representantes da ação em busca de informações. “Pelo mesmo motivo. Apesar de serem a favor da tradição, não estão suportando mais o vandalismo provocado por quem solta os busca-pés sem obedecer às regras já impostas”, completa. 

Na próxima véspera da São João, o Forródromo de Estância completará 25 anos, um espaço que comporta shows, corrida de barco e queima de fogos. “Mas alguns preferem continuar soltando nas ruas. No mês de junho tem pessoas que não saem às ruas com medo de fogos. É bonito, isso ninguém tenha dúvidas, porém, é perigoso. Por isso a importância de ter locais próprios, designados para tal prática, e uma fiscalização rigorosa”, enfatiza.

Prefeitura 

O prefeito de Estância, Gilson Andrade, através da Assessoria de Comunicação, comentou sobre a ação impetrada pelo grupo de moradores. “Entendemos que não podemos impedir as pessoas de buscarem seus direitos, nem de se incomodarem com algo. Então respeitaremos o que a Justiça decidir. Mas, por outro lado, os fogos são uma tradição estanciana. O poeta já disse: “Estância tem fogo no ar”. Assim, cabe ao poder público respeitar as decisões judiciais, mas também garantir que a sociedade possa conservar as suas tradições culturais e festivas”, afirma.

Segundo ele, a Prefeitura, através da Guarda Municipal e de parcerias com a Polícia Militar, fiscaliza o cumprimento da lei e busca controlar os excessos, da forma devida. “Mas vale ressaltar que na Rua Nova, local em que as guerras de busca-pé ocorrem, as pessoas residentes utilizam isso para se divertir, colocando telas em suas casas, convidando amigos e parentes para apreciarem a beleza das disputas de busca-pés, renovando, a cada ano, essa tradição secular de Estância”, declara. 

Para este ano, a Administração Municipal manterá a mesma estratégia de fiscalização utilizada ao longo dos últimos dois anos, segundo ele, dando uma atenção especial à antiga Rua do Triunfo, justamente para evitar que sejam cometidos excessos, em respeito à população. O gestor aproveita para informar que o Forródromo da cidade, o maior do Estado, capaz de acomodar até 100 mil pessoas, já recebeu serviços de manutenção e está preparado para os festejos.

“Por se tratar de uma área aberta, nesse momento aplicamos pintura, capinação e uma decoração muito linda, que enche de orgulho todos os estancianos e faz a festa de sergipanos e nordestinos em geral”, complementa. Os festejos juninos em Estância foram iniciados ontem, dia 31, e seguem com programação cultural e musical pelos próximos 30 dias.

Fonte: Jornal da Cidade